PUBLICADO NO ESTADO DE MINAS, 23 DE AGOSTO DE 2005
TÍTULO: Rastros no Silício AUTOR: André Sathler Guimarães
Durante milênios, os homens preocuparam-se com pegadas na areia: aquelas deixadas por eles mesmos, que poderiam revelar seu paradeiro para predadores, e as ingenuamente gravadas por suas possíveis presas, que indicavam um caminho fácil para o alimento. Hoje, começa a se agravar uma preocupação com outro tipo de rastros, aqueles deixados na versão digitalizada da areia, o silício.
Empresas, governos e indivíduos estão coletando e armazenando mais dados do que qualquer outra geração da história. Sintomaticamente, o Wal Mart, que disputa a liderança como uma das maiores empresas mundiais, é o proprietário do maior banco de dados do mundo. Uma simples transação comercial, por exemplo, gera uma incrível quantidade de dados pessoais – o tipo de produto consumido, sua marca, seu tamanho ou quantidade, a hora da compra, outros produtos, marcas e tamanhos comprados ao mesmo tempo, o valor do produto e o valor total da compra. Caso essa compra seja paga com cartão de crédito, amplia-se ainda mais os dados coletados – nome, endereço, dados de crédito, etc. Enfim, ao realizar o que seria uma simples aquisição, o cliente deixa um pedaço de sua personalidade com o vendedor.
Analisados, esmiuçados, retalhados, rastreados e combinados, esses dados geram uma assinatura de consumo de cada indivíduo ou grupo de clientes, tornando-se possível a construção de um perfil bastante detalhado do estilo de vida da pessoa, incluindo muitos hábitos e preferências. O valor comercial desses dados é inegável. Não é a toa que as tecnologias de busca de padrões nesses poderosos bancos de dados recebem o nome de data mining, ou mineração de dados – as empresas estão debruçando-se com suas peneiras em uma mina de ouro.
Na Internet, a coleta de dados alcança seu clímax, sendo possível saber-se tudo, desde o tempo em que o navegador ficou em uma determinada página, até o seu fluxo de cliques ao longo de seu tempo de navegação. Tudo fica registrado no silício, esperando para ser rastreado por um programa inteligente, que saiba ler as pegadas e identificar um padrão de comportamento do “navegante”.
Os efeitos dessas práticas sobre a privacidade ressaltam aos olhos. Entendida a privacidade como o direito de viver privadamente, sem deixar margem a bisbilhoteiros, percebe-se imediatamente que os sistemas de armazenamento de dados representam uma grave ameaça. Com nossas pegadas bem marcadas nos zeros e uns das memórias eletrônicas, somos presas fáceis dos vorazes comerciantes (ou, em alguns casos, governantes).
Os direitos à informação são um tema que vem ganhando atenção, infelizmente, como muitos outros, primeiramente nos países desenvolvidos. A Comunidade Européia, por exemplo, vem adotando medidas severas para restringir o acesso e as formas de uso dos dados dos seus cidadãos pelas empresas. As normas chegam ao ponto de permitir que um cliente solicite que seus dados pessoais não sejam incluídos em processamentos estatísticos feitos pelos sistemas de data mining. Quando vendida, os dados dos clientes da empresa não são automaticamente transferidos para o comprador, há que se consultá-los quanto à sua autorização ou não para que isso aconteça.
Podem parecer medidas exageradas, mas são uma tentativa de salvaguardar a privacidade e o direito à informação como um elemento de cidadania. Portanto, da próxima vez que usar seu cartão de crédito, pense duas vezes.
Brasília,
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